sexta-feira, 13 de março de 2026

Canivete

                     Desde que me entendo por gente, papai sempre teve consigo um canivete. Geralmente, utilizava um daqueles estilo caneta, fininho e dobrável, com uma trava fantástica e que eu demorei a ter força pra conseguir destravar. Papai os comprava em Uberaba, no mercado municipal e existia um folclore que dizia que eram fabricados a partir do aço da barra de direção do Fusca. 

                        Até hoje não consegui descobrir se isso é verdade. O que descobri depois, foi que o famoso canivete LAN é invenção de um brasileiro e funciona sem qualquer tipo de mola, num sistema de travamento extremamente seguro e Como bom mineiro papai sempre disse que o canivete servia para descascar laranja, fazer algum conserto rápido, tratando-o como uma ferramenta muito útil. Nos ensinou assim..."Serve como ferramenta e não como arma". E desde pequeno sempre fui me fascinando por eles, os canivetes. Lembro do primeiro que pedi a ele, um pequenininho, um chaveiro. Como resposta ele me disse que o dia em que eu tivesse juizo, me daria a peça. Papai tinha várias coleções e as maiores eram a de chaveiros e canivetes. Eram as maiores. Mas também tinha colecionado selos e pedras brasileiras. Aliás, reputo a uma influência dele a minha adoração pelo colecionismo. 

                    Hoje pensando sobre isso, vejo que as coleções dele pararam depois da paternidade. Ele ao apresentar para meu irmão e eu as suas coleções, nos apresentava também curiosidades e utilidades que eram fascinantes. Papai nunca nos criou para a agressividade, mas para a defesa. Quando nos matriculou no Karatê, por exemplo,  sempre ressaltava que era para defesa e não para ataque. Era como se fosse o nosso Senhor Miyagi caseiro. Papai sempre nos direcionou para a reflexão. Muito embora adorasse filmes de guerra (assisti vários com ele nas madrugadas de Sábado para Domingo, no VHS ou no Corujão), sempre fez questão de nos exaltar a via diplomática para a solução de conflitos e os horrores que as guerras produziram. Saiba Pai, que esse ensinamento da parcimônia e da temperança me foi e ainda é muito útil e me lembrarei sempre...te amo!


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Pão Sem Química

     Uma das coisas que mais me dá prazer em fazer é cozinhar. Desde pequeno, na nossa casa minha mãe era a pessoa que tinha as vontades, encontrava as receitas, tinha inclusive vários cadernos recheados de receitas mineiras, francesas e tantas outras e conhecia o passo a passo e o sabor final. Mas a execução sempre foi de papai. Doces, pães, carnes...tudo era ele quem produzia com maestria e paciência. Nunca perguntei a ele, mas ao vê-lo cozinhar, imagino agora que sua calma e entendimento de processo se devesse a sua base com técnico em química e também a Odontologia, uma vez que na cozinha os tempos, temperatura e misturas ordenadas e quantificadas são receita para o sucesso. 

    Aliás por falar em química, me lembro que na década de 1980, no interior de SP onde residíamos, algumas padarias começaram a colocar faixas na frente com os dizeres "Pão sem química". Essa afirmação segundo papai era falaciosa, pois se referia apenas a fabricação de pão sem bromato, fazendo com que deixasse de ter a casca quebradiça...Papai dizia "Não existe pão sem química! Cozinhar é fazer química o tempo todo, controlando e medindo reações." Segundo ele isso era propaganfa enganosa, pra dar a impressão de que aquele pão sem a casca quebradiça seria mais saudável, quando na verdade era o mesmo produto com apenas um ingrediente a menos. 

    A vivência com papai sempre foi muito rica e me fez ser um apaixonado pela ciência, pois ele sempre fazia questão de nos explicar histórias, processos e segredos do mundo que nos cerca. Numa época em que o conhecimento estava nos livros e na escola, escutar em casa ou enquanto passeavamos de carro com ele tanto sobre o mundo só demonstrava o quanto papai ainda era professor, profissão que exerceu durante uma parte de sua vida, para auxiliar o pagamento da faculdade de Odonto, sua verdadeira paixão por toda a vida. E ele sempre teve muita paciência em explicar as coisas, e como mamãe sempre dizia" Seu pai é a Mãe da paciência!"...Na verdade papai sempre foi uma enciclopédia ambulante, cheio de informações e curiosidades, além de piadas....o homem sempre teve muito bom humor e sempre tinha um "causo" ou uma piada na ponta da língua. Só quero que você saiba pai, que me lembro por nós dois...te amo!

Série de Lembranças

Desde 2020, dentro da pandemia, notamos que meu pai começou a ficar mais esquecido...foi deixando de conseguir fazer algumas coisas corriqueiras como cozinhar receitas que sabia fazer, converter uma ligação de voz para vídeo para ver sua única netinha, minha filha, que morava em outra cidade...depois de avaliação veio o diagnóstico...Alzheimer...cedo, muito cedo para alguém de 71 anos... 

Nessa série passo a relatar minhas lembranças com meu pai...ele não consegue mais se lembrar de muitas coisas, mas eu me lembro do que aprendi com ele...lembro por mim e por ele...pq a gratidão é a memória do coração, já diria a frase conhecida que roda a internet.